terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vou colecionar mais um soneto

Já conheço os passos dessa estrada...ela cantarolava enquanto carregava a sacola de frutas debaixo daquele sol escaldante. Mas estava feliz, aliás, desde que decidira tirar do peito qualquer coisa que a fizesse sentir-se mal, tinha conseguido ótimos resultados. Estava mais leve, mais livre, mais solta. Se sentia sozinha por vezes, mas sabia que isso seria inevitável. O que não era inevitável era se acomodar, seguir na mesmice, aguentar o que não te faz feliz, só pra não se ter o trabalho de ir buscar. E ela decidira que ia encontrar a felicidade, a qualquer preço, nem que isso a obrigasse a olhar mais pra si que pros outros. Mesmo assim, ela achava que ia acabar se tornando uma pessoa melhor. Mas esse negócio de ser alguém melhor, era pra ser consequência, nada de caso pensado. É certo que ela morria de medo de apodrecer esquecida num quarto escuro, mas com o sol que fazia lá fora, ela sorriu, seria quase impossível.

sábado, 26 de dezembro de 2009

tentativas, uma.

Faz tempo que não escrevo, ou melhor, faz tempo que não escrevo nada que não seja obrigada. Talvez porque eu precisasse de calma, e hoje a calma está aqui.

Não consigo escrever nada sobre o Natal porque ele não está aqui. Algumas coisas fazem cada vez menos sentido e não vejo motivos pra buscá-los. Nunca foi da minha personalidade tentar dar realidade para as coisas que eu não sinto, então os dias passam cada vez mais iguais por aqui.

Não tenho vontade de falar. Como se não encontrasse interlocutor capaz. Mas eu tento, quem sabe, num próximo ano.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Meu primeiro amor

Faz tempo que eu não escrevo, a não ser os trabalhos da faculdade. Mas tenho que admitir que eles foram bem mal-feitos, ou pelo menos não feitos com tanto esmero, nem na rua dos bobos, nem no zero. Ai, meu deus, preciso parar com as piadas infames, urgentemente. Eu sempre me sinto mais idiota que o normal depois que elas, involutariamente, saltam da minha boca. Well, estoy bien, se que. Bom, não vou continuar com as chorumelas porque afinal, eu sei quem se importa.

Eu lembro quando eu tinha uns 16 anos e me apaixonei pela primeira vez. Na verdade eu fui descobrir quase com 18 que eu estava apaixonada, e claro, eu fui a última a saber. Essa é uma das trági-cômicas histórias da minha vida. Aos 16 eu sofria de amores, e de ódio também, porque nessa altura da vida, eu estava muito mais empenhada em ser diferente "daquele bando de adolescentes fúteis", do que a olhar pros lados. O tempo foi passando, e eu dividia meu tempo entre brigar com o coitado do garoto e pensar no que eu falaria quando ele me ligasse a noite. E eu não entendia nenhum daqueles telefonemas, começavam com o caderno que ele - sempre - esquecia e terminavam sempre com algo do tipo, e que música você mais gosta?. Mas claro, a parte que eu mais gostava era a de brigar, e eu me empenhava fortemente nisso. Até que, claro, alguma coisa saiu do meu controle, e quando eu percebi, tínhamos virado inimigos mortais. Os telefonemas sumiram, mas as brigas aumentaram numa velocidade desproporcional. Conseguíamos constranger a todos, como se fosse uma competição de quem ofendia mais. Até que um dia ele arranjou uma namorada e sumiu. Eu, na minha santa ignorância, camuflei a tristeza e acreditei que tinha ganhado a briga, a final aquilo tudo devia ser uma briga, só.

Mas o tempo passou, e bem no meio das provas, quando eu ia pra escola de calça jeans, chinelo e moleton, sem a mínima preocupação com a aparência. Até que ele apareceu na minha frente, e eu achando que era engano, a final, nós não éramos inimogs mortais? Até que ele disse que ia embora, os pais iam se mudar, e ele queria pedir desculpas. Eu não entendi e ele me explicou, me contou de toda a história de amor que não aconteceu - e que no caso nunca aconteceria, e eu dei um sorriso, um abraço e um beijo. Fui embora, não aceitei o convite pra festa de despedida, nem esperei ele me dizer pra ir embora. Eu saí correndo até a praia, até me sentir segura, e chorei, chorei como nunca havia chorado em toda uma vida. E eu aprendi minha primeira lição sobre o amor, que ele existe independente da nossa vontade, e que sabe-lo ou não, só da nome ao sofrimento.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

As nossas escolhas

Quando eu a conheci, ela era uma das meninas mais bonitas e legais da turma. O engraçado é que todo mundo tinha namorado menos ela, e parecia que toda hora faziam questão de lembrá-la disso, como se fosse algum tipo de defeito. Pra mim esse tipo de coisa nunca fez muito sentido, até porque eu fui ter meu primeiro namorado aos 17, enquanto todas as minha amigas estavam, pelo menos, no segundo. Mas parecia que o fato dela não ter namorado incomodava todas as pessoas em volta.
Os comentários eram sempre cheios de pena ou sarcasmo, e eu, como era "nova" na turma, nunca repliquei ou contestei, a não ser mentalmente, esse tipo de situação. Nada era muito explícito, mas as coisas implícitas sempre me incomodaram mais do que aquilo que era expresso nitidamente, até porque, quando se tem o álibe da subjetividade, é muito fácil se ausentar da culpa. Mas o tempo passou, e além de nos tornarmos amigas, ela se apaixonou por um dos meus amigos.
Engraçado era que os comentários não perdiam o tom, finalmente desencalhou, foi a frase mais ouvida no primeiro mês de namoro. Depois de seis meses, a coisa mudou para um "não vai durar muito". Mas ela nunca pareceu se importar muito com isso, e eu também nunca ousei perguntar, era como se aquele tipo de julgamento não surtisse efeito na sua vida, mas porque raios aquilo me incomodava tanto?
Uma vez comentei com um amigo e ele falou que era meu instinto de sempre querer proteger as pessoas que fazia com que eu me sentisse tão mal quando aquele tipo de situação acontecia. Mas não era isso, a questão foi que eu passei a me incomodar a todo momento, não só quando faziam comentários maldosos sobre o estado civil da dita cuja. Era como se eu sentisse que aquelas pessoas poderiam fazer a qualquer momento alguma observação sobre a minha pessoa, afinal, eu era muito menos bonita, legal e sociavel do que ela. E eu tinha completa noção que se eu fosse me importar realmente com isso, eu não teria vida - até porque eu tenho uma certa tendência pra neurose, é bom deixar claro.
Até que um dia, entre uma cerveja e outra, aquela que tinha s- ou pensava eu que tinha - se tornado, até então, minha amiga falou sobre uma das coisas que me deixa realmente sem graça: meu peso. Foi uma piada, todos riram, e se eu não fosse tão encanada assim com isso, teria rido também. Mas eu não ri, não havia motivo pra risada, e pela primeira vez eu não me importei com meu peso, ou com o que achavam dele, mas como tinha sido tola aquele tempo todo.
Como tinha sido teimosa em cismar em querer ver tudo através das minhas lentes, do meu ponto de vista, daquilo que eu - e mais ninguém - achava certo. Eu percebi que as minhas preocupações eram sem sentido, e que o que as pessoas falavam não continham todo o peso que eu dava pra elas. Tudo ficou claro, e mais claro ainda que aqule não era o tipo de gente que eu queria do meu lado. Não por uma questão moral, não por que eram pessoas ruins, mas eram pessoas que não tinham as características que eu julgava importante para qualquer ser humano. E isso só diz respeito a mim, porque eu tenho direito de escolher quem vai ficar do meu lado.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Santos


Meu coração aperta, e cada dia tem apertado mais. É saudade de casa.Saudade da areia derretendo os meus dedos dos pés, misturada com o mar, descendo pelo calcanhar até se perder pela rua, pelo piche do chão. Saudade do meu pôr-do-sol particular, de ver o sol desfalecer só pra mim, como um cobertor que me proteje na noite escura. Eu sinto falta do meu pé descalço queimando no asfalto. Às vezes eu penso que não nasci para a cidade grande, ainda que me encaixe perfeitamente nela. Me faz falta poder sair por aí, poder andar com meus próprios pés, receber a benção do mar todos os dias, e me sentir segura, perdidamente segura.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

meus restos de tempo

Eu ponho Belle and Sebastian no som. Faz um tempo que B&S se firmou como o meu som, as minhas músicas, aquilo que me faz me sentir mais eu. Eu costumava caminhar pela USP de madrugada ouvindo "The stars of track and field aaaare beautiful people", e conseguia resolver as minhas questões mais íntimas e aterrorizantes. Mas hoje tudo mudou, eu comecei a ler uns textos antigos que eu tinha salvo em arquivo, uma espécie de compilação que eu fiz de vários blogs e sites da internet, e enquanto B&S tocava eu lia, escutava e lia, lia, lia, e lia. É engraçado como algumas coisas voltam à tona em questão de segundos, como os amores se desenterram pelo união da palavra com o som, e como nos sentimos mais volúveis e perdidos no meio da melancolia se dissolvendo nas gotinhas de chuva da janela.
Eu vou vasculhando pelo quarto e achando todas aquelas lembranças que eu pensava ter jogado no lixo, pra não mais sofrer, como se fosse música. Mas elas estavam todas ali, como se alguma coisa tivesse feito com que elas ficassem comigo, sem que eu percebesse. E agora quando eu pego cada pedaço esquecido, meu coração não se arrabata, não dói, não chora. Eu não fecho mais tudo rapidamente e finjo que nada ali aconteceu. Agora eu suspiro com uma carta nas mãos, com saudades daquilo que foi bom, fecho os olhos querendo voltar no tempo, no exato momento em que aquilo tudo foi verdade e brilhava. Eu tento voltar em cada instante que um dia foi meu, e hoje de quem será ? Meu coração regateia, minha respiração falha, o passado envelhece as fotos. O tempo passa, mas será que tudo também passa ?

terça-feira, 30 de junho de 2009

firmamento

de dor,
sem cor
de cor,
sem dó

avanlanche passa e prende
mas não rende
paraliza
incisa

um risco
apagado
não corre
e desata
como se a vida
não fosse mais que uma errata.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Considerações sobre o fim-de-semana

O cheiro de comida da cozinha só faz com que meu estômago doa mais. Parece que só o cheiro do bacon já consegue aumentar minha acidez. Aliás, engraçado isso, eu não sou uma pessoa ácida, apesar do meu estômago ser. Enfim, Michael morreu, o Luxemburgo saiu do Palmeiras e o McDonalds não fabrica mais o McDuplo. Notícias arrebatadoras pra um fim-de-semana curto demais.

Jackson morto, sim, ele era de verdade. Ele me lembra como é perigoso se perder dentro dos seus próprios limites. Eu choro a vida de Michael, eu sorrio aliviada com a notícia, ele se foi, ele parou de sofrer. Se houver outra forma de vida, que seja boa para ele. Meu coração não em permite escrever mais, as palavras nem tangem minha dor.

Luxemburgo
5 da manhã de sábado, a notícia: Luxemburgo fora do Palmeiras. Não foi especulação, saiu da boca do mesmo. E nunca foi tão bom acordar tão cedo num sábado.E meu sorriso se abriu, e minha esperança se renovou. Desde a segunda divisão, eu nunca o perdoei, e pelo visto, não perdoarei tão cedo. Que venha Muricy, que venha Abel Braga, que venha quem vier. Mas que venha com amor, e respeito por essa camisa tão vitoriosa. Que quem vier saiba da responsabilidade, e que ame esse time, acima de todas as coisas.

McDuplo
O sanduíche mais gostoso que essa porca capitalista adora comer. E os porcos capitalistas-mor do MC aboliram ele do cardápio! E sem aviso! Agora eu só vou pedir o McFlury com Ovomaltine do BOBs, e tenho dito.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Necessidades e Costumes

Eu preciso me acostumar com as lentes novas dos meus óculos. Com a minha miopia desproporcional, que quanto mais diminui, mais me atrapalha. Eu preciso me acostumar a ter paciência, calma e confiança. A espera sempre é longa, senão seria chegada. E eu gosto mais delas. Eu gosto das janelas da varanda se abrindo e as pessoas correndo pra fora de casa. Mas a minha casa é apartamento e as varandas dão pro céu, o chão acaba no ar que eu não sei pisar. Eu preciso me acostumar, lembrar que eu não tenho asas e que não posso sair por aí achando que todos também não tem.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A minha (falta de) história com Deus


Você acredita em Deus? Uma vez eu tava respondendo um questionário pra uma vaga de emprego e tinha essa questão. Eu pus que sim, óbvio, as boas pessoas devem acreditar em Deus. Mas hoje, pensando melhor, eu suspiro alto e digo com certa relutância e muita honestidade: eu não sei - e sinto minhas pernas tremerem ao anunciar isso, mesmo que seja só em pensamento.
A verdade é que eu sempre quis acreditar em Deus. Aos oito anos me sentia mal em não saber rezar um pai-nosso. Eu não fiz catecismo e o máximo de Igreja que tinha frequentado naquela época foi em um ou dois casamentos. Aí eu achei uma revista que falava sobre religião e decorei a oração. Aos poucos eu fui adicionando frases que escutava para implementar, como se isso suprisse de alguma maneira aquela minha primeira falha com Deus.
Um tempo depois eu roubei uma santa aqui de casa. Na verdade ela estava esquecida no escritório, e eu por alguma razão desconhecida, levei pro meu quarto e a tenho comigo até hoje - ainda que ela esteja sem rosto, porque insistem e derrubá-la no chão quando eu não estou por perto. E sim, eu até hoje não sei qual o nome dela. Ela é a minha santinha, é pra ela que eu peço em última estância. E dela não me desfaço, ainda que eu não acredite.
Pois é, e tenho uma santa sem cabeça em cima da cama e não sei se acredito em Deus. Isso quase não faz sentido. Mas continuemos. Depois de um tempo eu me encontrei dentro da Igreja da Consolação, pedindo pra que qualquer coisa desse um sentido pra minha vida. E fiz a estúpida promessa que nunca se faz com Deus - acreditemos nele ou não. Nunca deve-se por Deus, ou deus, em cheque. Mas no alto da infelicidade dos meus 20 anos eu pus. E perdi, claro. E com isso, racionalmente se tornou quase impossível prever qualquer tipo de aproximação entre eu e Ele.
Eu ainda tentei algumas promessas, mas não encontro o botão de acionamento da fé no meu corpo. Não encontro um motivo para acreditar em Deus. Não encontro um motivo pra Deus acreditar em mim. Eu durmo todo dia antes de terminar meu pai-nosso-incrementado, talvez seja a minha falta de fé. Talvez seja Deus tentando me explicar que a fé está em outro lugar.

PS - Pra quem não percebeu, a santa com o rosto quebrado na imagem, é a minha.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Desabafo

Eu estou cansada dos discursos inflamados, pra não dizer dos ânimos. O maniqueísmo disfarçado de ideologia revolucionária não desce mais pela garganta. É preciso gritar.

Eu sou contra. Terminantemente contra. Acho que é uma luta pelos meios e motivos errados. Um passo pra fora da reta, ainda que não possamos falar em reta, num caso como esse. Eu explico, mais uma vez, de novo, e repetidamente a USP está em greve. Uma greve como as outras, talvez um pouco mais requintada, um pouco, um pouco só. Melhor, um pouco e só.

E quando digo um pouco, me refiro à entrada da PM no campus, e aos atritos com alunos, professores e funcionários. Isso me cansa. Quem estuda na USP está cansado de ver, ouvir e saber que um grupo que totaliza num máximo cinco mil pessoas - só de alunos, a USP conta com 80 mil -, sempre está correndo atrás das greves. Os alunos - e quando digo alunos, excluo todos aqueles filiados aos partidos políticos, porque, por exeperiência própria, creio que tem outros objetivos dentro desta universidade - quando favoráveis à greve, pedem por mais tempo para terminarem seus trabalhos de fim de semestre. Os funcionários pedem aumento, os professores, bem os professores são na maioria das vezes sufocados, e se tornam apáticos, lutando por causas que não são, a priori, suas.

Hoje, a PM virou bandido. Mais uma vez, os intelectuais mais conceituados do país- pelas suas próprias palavras -, voltam à ditadura, e estremecem de medo ao primeiro contato com a polícia. Parece que paramos no tempo. De um lado vemos professores acuados, lutando contra uma polícia que está posta no campus por ordem judicial para protegerem eles mesmos, e de outro, temos alunos afoitos que, por pensarem não fazer parte da história política do país, desejam uma polícia truculenta e imbecil, cuja função seria transformá-los em heróis.

Sinto dizer, mas hoje, não há mais espaço para heróis. O heróismo é luxo numa universidade que, aos poucos, se transforma em lixo. Não é preciso que haja revolução para que haja reforma. Para reformar é preciso material, planejamento e vontade. Mas eu me esqueci, eles buscam por uma restauração. Eles não sabem se adaptar. Eles são crianças mimadas que querem porque querem sem motivos justificáveis. Eles não querem o debate, eles são contra a maior e mais eficaz forma de democracia já inventada - até porque, a democracia das mãos levantadas é totalmente secreta e inviolável , não?

Eu sou contra essa greve, eu sou contra os preguiçosos que fazem greve. Contra todos aqueles que se deixam levar pelo mais convencional. Se queremos que essa universidade seja o que se diz dela, é preciso acalmar o passo e baixar o tom de voz. Para estudar, é preciso silêncio, para lutar também é preciso.


segunda-feira, 25 de maio de 2009

Rasgada, era assim que eu me sentia. Que nem pano velho, que agente rasga e faz dois, três, quatro, uns pra tirar o pó, outros pra limpar o chão. Essa consciência já me bastava. E sentia que era a mesma velha história: se culpado havia, o codinome seria meu. Porque fugir daquilo que conforta se mostrava tão ferozmente como o caminho certo? Porque tudo parecia me levar a um estado paralizador das ações? Como num quebra-cabeças eu lutava contra todas as multidões que habitavam meu coração, atrás da peça certa. Sem saídas, eu fugia por todas as tangentes buscando pelas redes de segurança que não estavam mais ali. Eu não sabia pra onde eu ia, eu não sei o que me tornei. 

domingo, 17 de maio de 2009

Ruídos

coração
desfeito
não tem jeito
eu suspeito
eu não sou assim

coração
rasgado
magoado
quase um fado
fato eu canto
pra extirpar a dor

erva daninha
meu tremor
meu desespero
não me salva
só me rende

esse amor
já tão latente
que distorce
que distende
esse peito tão marcado em dor

não me deixa
nem me sai
me transforma
e me desfaz

me arrasto
sem ter rastro
sem ter sombra
a me acompanhar

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O tempo sempre passa.

Uma das coisas que mais me enervava na vida é quando alguém falava "tudo passa". Eu, sempre teimosa e fiel às minhas dores, achava um desaforo deixar as mágoas passarem, assim, como se levadas pelo mar. Até que eu cresci, ou se não cresci, algo se modificou dentro de mim. 

Hoje meus cabelos são curtos e a minha desconfiança é comprida. Eu não realizei nenhum dos sonhos dos meus quinze anos. Eu não realizei nenhum dos planos dos meus vinte, e olha que eu só tenho vinte e dois. Hoje eu escrevo até os números por extenso, pra não submetê-los à um mero símbolo. Eu aprendi a não abreviar. Hoje eu sou cheia de medos que conheço, e ciente de outros tantos desconhecidos. Sou movida pelo medo, ainda que seja bem lentamente, mas não paralizo. Aprendir a tapar os ouvidos nas horas certas, mesmo que ainda possa-se escutar por entre os dedos. E quando a dor vem, eu deixo ela vir, eu me arrebato de dor, me deixo ser dor, como se fosse um vento que passasse por mim. Despenteia meus cabelos, mas eu sempre tenho um pente na bolsa. 

quarta-feira, 13 de maio de 2009

São Marcos do Palestra Itália




E ontem todos os devotos viram o milagre acontecer. Porque Deus pode até não ser palmeirense, mas São Marcos é.  


sexta-feira, 8 de maio de 2009

08-05-2009

e eu me perdi de novo entre as suas cartas e promessas, a mesma música tocando no ouvido, porque nada muda, nada muda se agente nao muda. e eu fico me procurando, procurando uma pista de onde eu possa ter me deixado, se foi em você ou nas cervejas que eu fui esquecendo de tomar com o tempo. o tempo passando e eu ficando, que nem quando você vê a paisagem pela janela do carro, todo mundo fica olhando pra mim enquanto escolhe uma música no ipod. 

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Uns versinhos sem melodia.

eu sou o verso que você cantou
eu vou te procurando pelo ar
e quando eu vejo você passou
e eu esqueci de te alcançar

você é tudo que eu deixei passar
que num piscar de olhos se perdeu
com o acaso a descançar
eu perdi o que você viveu

enquanto andei você corria
e quando eu ia você parava
eu tropeçava e você não via
que em todo o lugar eu te procurava



domingo, 3 de maio de 2009

Verde que te quero verde.

Eu não acreditava mais. De família de santistas, eu vi todas as minhas forças se esvaírem junto com as do Diego Souza no último jogo da semi-final. Afinal, aquele não era o meu Palmeiras, disso eu tinha certeza. Reformulação, reestruturação. Fica Belluzo, sai Luxemburgo - aquele que eu não consigo perdoar -, quero que percam logo, quero o time do Palmeiras vestindo essa camisa. Quero respeito, eu falava sem disfarçar as lágrimas que caíam de vergonha daquele time que vestia a minha camisa sem propriedade nenhuma. A Libertadores só serviria pra triunfar o fracasso, eu estava magoada, triste, me sentia traída por aquele que eu amava sem restrições. Contra o Colo-Colo, contra a declaração do Luxemburgo de segurar o jogo, contra a minha mágoa, eu assisti, e desisti aos 40. Virei pro lado e não permiti que meu coração sofresse mais uma vez, fechei os olhos e só não desliguei a tv por teimosia.Gol. Virei pro outro lado, bem feito eu falei. Até que eu ouvi um Palmeiras. E vi Cleiton Xavier gritando junto comigo, eu vi o Palmeiras. Como se algo divino tivesse acontecido. Esperei o replay, o gol. Olhou, chutou e fez. Na raça, na confiança. Porque quem veste a camisa alviverde pode arriscar, Deus sempre ajuda. 

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Não me deixa mais rasgar o coração assim.


Ponho uma música qualquer. Só me importa o volume. A garganta dói, mas continuo prendendo o choro. Acho rídiculo chorar, pelo menos agora. Acho que eu gastei demais meu choro, acho que eu me gastei demais. Não faz muito tempo eu me dou por gente, e costumava não por planos no papel pra evitar a decepção. Ledo engano meu, menina que pensava controlar o mundo. Controle é a depreciação do cuidado. Doação sempre é demais. E eu demorei muito pra aprender. E não apreendo. Bato a cabeça em todas as paredes e no chão. Agulha do compasso que segura a ponta que risca. Diametralmente oposta ao risco eu estou. Inflou e subiu aos céus como um balão. Isso poderia ser uma carta de despedida, mas é só um lápis segurando uma mão. 

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Uma música, um amor

Eu ponho uma música na vitrola, deito no chão e deixo o Chico-chiado se misturar com a poeira e se instaurar em mim. Quinze anos, ou dezesseis, eu achei um toca discos guardado na garagem, peguei uns dez LP's do Chico e trouxe tudo pro meu quarto. Era um domingo, eu não esqueço, ou talvez sabádo, as lembraças não tem datas - é isso que eu sempre me esqueço. E naquela época eu só queria saber de ouvir Chico e pensar como eu ia fazer pra mudar o mundo. Só bem mais tarde eu aprendi que o mundo não muda, quem muda somos nós, mas isso não importava ainda. Eu passava as noites em claro, eu, o Chico e as músicas que nós, juntos, escreveríamos. Observava de longe a agulha rasgando o vinil, enquanto ele falava baixinho, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água. Antes do Chico, eu só queria ser alguém importante, tinha o sonho besta da revolução implantado na cabeça. Com o Chico eu me apaixonei pela primeira vez. O Chico despertou o órgão hipersensível que habitava meu corpo, e que antes, palpitava ideologicamente por alguma causa sem razão. O Chico cantou todos os meus amores, e fez de todos os meus pretendentes irrisórios, burros, e perversamente insensíveis. Depois de um tempo eu voltei a vitrola pra garagem, e baixei as músicas no computador. Mas eu nunca mais quis mudar o mundo, eu nunca mais tive grandes pretensões. Pra mim, tudo aquilo que cada um tinha dentro de si era tão bonito, tão instigante, e tão mais difícil de se adentrar do que qualquer causa operária consciente, que eu optei pelo caminho mais difícil. Um amigo virou cientista social, eu não virei nada. Uma conhecida, vai disputar as próximas eleições, eu vou passar as férias no Rio de Janeiro. Eu vou cantar. Eu vou sair por aí, vou escrever um verso em cada muro. Vou atravessar todas as ruas que se colocarem na minha frente, eu vou ir sempre em frente. E um dia, despida de qualquer ideologia barata, de qualquer idealismo frouxo - porque os ideais não são feitos de cimento -, eu vou sentar no meio fio, eu vou encher o meio fio de de amor, eu vou entupir os bueiros com as músicas do Chico, eu vou encher as calçadas dos meus quinze anos, e quando chover o mundo vai sentir o cheiro rasgado dos corações apaixonados.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

24-04-09


Eu to pensando em desconsiderar postar minhas poesias aqui até o fim do semestre, isso porque - acho que eu já disse, mas não custa relembrar -, eu tenho uma matéria na faculdade que me obriga a ter uma produçãozinha poética até o fim do semestre, com no mínimo 10 poemas. Até aí tudo bem, é só eu postar aqui e entregar lá, mas é que eu to com uma ligeira impressão que o professor não gosta desse tipo de coisa, ou vê esse blog - que eu espero, sinceramente, do fundo do meu coração, que seja mentira - , ou tem poderes sobrenaturais. Porque eu quis dar uma de espertona e dei pra ele uma poesia de janeiro, eu acho, e ele fez um comentário meio ardiloso durante a aula, algo do tipo, eu só quero poemas pós-março, e eu me senti a idiota perfeita. É óbvio que bate aí meu senso de honestidade, que já tava meio cambaleante frente à minha atitude sabichona, mas de qualquer maneira, eu vou tentar me controlar. Apesar de morrer de vontade de saber as opiniões alheias antes de entregar, até porque, se ele me vier com um zilhão de críticas, eu me daria por satisfeita em pensar nele como um contemporâneo barato e frustrado. Mas é hora de crescer e lidar com as verdades que as pessoas escancaram na nossa cara, né? 

Enfim, essa matéria não me ajuda em nada a produzir, só em confunde e me dá preguiça. Eu sempre escrevi, desde que me conheço por gente, e agora eu sinto que travei, ou melhor, que eu fui imbuída duma preguiça sem fim. Até porque quando eu tento produzir em casa com calma e obstinação saem coisas bem gostosas. O que me pega de jeito, é que nessa aula, agente tem uns dez minutos pra escrever, e isso me tira do sério, de verdade. Se  a idéia é ser instatâneo, ou pelo menos, sem preparações, eu preciso ao menos de tempo. Não em incomodo em que alguém vire pra mim agora e fale, escreva sobre a bezerra desmamada, a questao é que eu preciso de um tempo INDETERMINADO pra fazer isso. A não ser que eu esteja insipirada - sim, porque eu acredito na inspiração, e hoje eu descobri que o Drummond também, então nem preciso de ressalvas, certo? -, mas voltando, se eu estiver inspirada eu termino o poema em 10 minutos mesmo, o fato é que quando eu não estou eu preciso primeiro organizar minhas ideias, fazer elas degrudarem da cabeça, e às vezes até procurá-las atrás da orelha ou no meio do esôfago, e isso demanda tempo. Então ultimamente eu tenho feito uns poeminhas de - desculpe a expressão - poeminhas de merda, que nem eu mesmo gosto. E aí a porcaria do meu ego - que é tão bem cuidado, eu levo toda semana na manicura, juro -, fica meio, digamos, abalado. Um porque eu realmente escrevi mal, e dois por que o dito cujo professor também achou que eu escrevi mal. Ou seja, bingo! A Laura não é um gênio, e droga, ela precisa trabalhar para que as coisas saiam realmente boas. Então hoje eu escrevi, como não escrevia há muito tempo, e gostei do resultado, lapidado, com cuidado, com força e conteúdo. Vamos ver, se eu não me aguentar eu posto. 

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Socorro não estou sentido nada, mas como já senti, vai esse, eu gosto, era dos meus 16 anos.

Uma carta por tentativa. Um poema involuntário.



Gosto das letras,

Das palavras dispostas,

Mas e se não existissem nem as letras , nem as palavras?

Tenho que pensar no meu eu sem nada disso.


Vi o mar.

O vi como coisa real e imensa.

O mar tem um significado maior do que mar.

Ou eu que nunca soube do seu real significado?


Mas e que importância tem tudo isso?

Só sou o que sou graças ao mundo que vivo.

Se ele não existisse,

Eu também não estaria aqui?


Terei eu a mesma finalidade de um grão de areia?

Se tivesse nascido como grão , moraria na praia.

Como gente , penso que sou dona do mundo.

E se não houvesse mundo?


O obscuro ainda me atormenta.

Ainda mais sozinha.


Descobri que os apaixonados olham pro céu

E os amantes para o chão

E de que isto me serviu?


No momento parecia uma grande coisa

Mas nunca fui amante

Nunca me apaixonei

Contudo, já olhei pro céu e pro chão.

E daí?


Modernistas loucos e bem de vida.

Escritores presos , avessos ao mundo.

E daí?


A prostituição maior seria vender o que escrevo.

Mas tenho prazer em ser conhecida.

E daí?


Nunca me adaptaria ás regras impostas.

Mas fui oprimida por elas pela vida inteira

E hoje não mais sei quem era.



E por mais simplicidade que peça

Nunca levaria uma vida normal.

Sou gente por origem , e grão por consciência.

E isso que me dói.

Mas e daí?

-Ouço vozes irritadas no fundo da sala.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

vinte e dois.

não mais que poucas palavras me valem.
espremo meu coração e o que é líquido se esvai.
não me alongo e não construo
permaneço enquanto o tempo cisma em passar
des-insisto no improvavável
me fixo no essencial
sentimento ao relento
me desfaço em vento.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

não. eu não consigo por uma letrinha depois da outra que faça um mínimo de sentido lógico. cabeça girando, cansaço batendo forte atrás das costas. muita insegurança. muito medo. muita coisa que eu não sei explicar borbulhando dentro do meu peito querendo sair. mas o cansaço não deixa. tanta coisa que ficou na prateleira do deixa pra depois. e o depois parece que não chega nunca. aí eu fico pensando se eu vou ter que fazer acontecer tudo. e no fundo eu sei que vou o problema são todas aquelas pedras no meio do caminho. e as mudanças de caminho. e estou cansada, já disse. e sem linearidade.

sexta-feira, 20 de março de 2009

a poesia que eu fiz na sala de aula.

Eu fiz na aula, à pedido do professor. Se alguém acertar o comentário dele, eu posto aqui.



À Deanie Loomis,

Não sei de quem nem porque
Só sinto o que falo
Suponho o que sinto

A fragmentação se instaura:
Chocado lê, leio:

A poesia é o único universo onde a comunicação é plena
A cadeia alimentar dos sentidos
A transfiguração em grafite
(daquilo que não se transfunde, confunde, transforma)
Dependência:
Sozinha me vejo
Me encaminho e me perco
Cercada e perdida
A vida como se prostra em mim, se dá
Sem rimas

Da chuva que não cai
Para a face que não molha
Nada conflui
A seca se instaura e impulsiona
meu -próprio- ser
Arranho o papel
Um fluxo influenteafluente
Um rio que não cessa
Vazio.

terça-feira, 17 de março de 2009

Algumas palavras simbólicas sobre o sentir-se bem

Eu venço o sono e o cansaço, meu e seu, e me rendo ao amor, fazendo valer a prerrogativa de que somos melhores, sempre mais. Há algum tempo, tendo em vista a sua relatividade - e também, a minha e a sua, ou dele, no caso você, não o tempo -, minha alma se sente em paz. Como se isso fosse, de certa forma, algo não piegas e falso a ser dito. Mas não encontro indizibilidades que mostrem em sua própria siginificação o sentido que procuro. O referencial simplesmente me basta, hoje. Tenho a paz em meu coração transtornado. Entre as guerras instauradas em meu ser, perdoei tudo e todos. A mim, transversalmente, frente e verso, em cada diagonal e em todos os avessos possíveis, me rendi frente a minha própria imagem espelhada. Ainda me pergunto onde lugar posso ter me encontrado, antes de chegar no teu peito. Em algum lugar me perdi, antes de ti. De ti, de mim sem si. E lá, fá, sol. A música me invade e não faço concessões. Nada me é mais forte que a sensação plena de completude. A calma para se continuar seguindo em frente. o alívio no fim do dia, não pelo seu fim propriamente dito, mas pelo começo de vida que se instaura. Pelos olhos cansados e bocas que pouco falam, pela quase invisível linha pregada em nossas mãos. Por aquilo que se encerra, se termina. Os olhos se fecham, e pode-se dormir.

segunda-feira, 2 de março de 2009

(re) FLEXÃO

braços até o chão e o corpo numa reta horizontal
você só vê chão
ele se move lentamente pra cima e pra baixo
de acordo com o que você consegue suportar de si mesmo
o seu peso
o mundo que você sustenta nos ombros
o mais perto que você conseguir chegar do chão
como quem toca a realidade
faz de você um homem forte

domingo, 1 de março de 2009

se

pra que eu vou escrever
se você não se interessa
pra que eu vou falar
se você tem tanta pressa

se tudo que eu escrevo é pra você
se é na tentativa
de você me ler
quando você passa e vira a cara
se você nem olha e vira a página

se você não se interessa
se você tem tanta pressa
pra que eu vou escrever ?

de tudo que eu falo e me dedico
de cada coisa que eu me habilito
a conversão é sempre plena
ela nunca muda a cena
você passa e atravessa
e não há o que o impeça

se você tem tanta pressa
e também não se interessa
que trabalho eu devo ter?

me preocupar se você lê
declaração de amor
que é só pra você

e você mente que me vê
só pra não perder
o amor que eu sinto por você.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Anti-quadrinha

Mariana tinha 6 anos e pintava sóis coloridos nas paisagens.
Quando fez 12, se decidiu pelo laranja, vermelho e amarelo.
Aos 15, achava que só amarelo bastava, e meio sol, nascendo no horizonte.
No aniversário de 20 anos, a folha estava em branco.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

entretrechos

Ele se sentia uma marionete, as cordas esticando letamente seus braços que não eram elásticos. Puxavam e repuxavam, e à essa altura já não sabia mais quem o segurava. Sua força motriz havia se dissipado, se sentia perdido à merce de quem fosse mais forte, e temia estar sempre sendo levado para onde não queria. Intuitivamente, sabia que sucumbia à forças que só o distanciavam daquilo que conhecia de si. Precisava romper suas amarras, mas tinha medo de não se sustentar sem elas. E se caísse, quem o seguraria ?

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Cansaço de mim

As metáforas já não tem mais sentido. Eu não consigo mais juntar uma palavra na outra. Tudo parece ter ficado muito tendencioso e pessoal. Um bloco de concreto cravado no peito, pulsando dentro do indizível. Cega de sentidos e atordoada de clichês, eu só enxergo aquilo que meus olhos alcançam.Fechada e cercada pela paisagem que se prostra à minha frentre, não sucumbo e não cedo, minha força é inutil ao tentar quebrar as amarras e ver além.
Só vejo limites, enclausurada dentro do meu próprio corpo, falhada na tentativa de transcendência. Entre rasgos e cortes simetricamente calculados eu sou aquele que, por não enxergar a reta de chegada, desiste antes da curva. A depressão travestida de conformismo.


and missed the most important thing you've ever tried to say
The day before the day - Dido

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Insegurança

Eu sou insegura, sempre fui, desde pequenininha. Sou cheia de dúvidas, cheia de desconfiança. Ninguém tira de mim a certeza de que absolutamente nada controla os sentimentos.

Eu lembro de uma vez que eu terminei um namoro e o dito cujo em questão me devolveu: - Mas você disse que nunca ia me abandonar. Que nós eramos pra sempre. Essa quase ameaça, caiu como uma bomba na minha cabeça. Todas as minhas conclusões e certezas sobre amor e seus derivados caíram por terra. Afinal, se eu era capaz de deixar de amar, porque o resto do mundo também não seria? Tá certo que a gente sempre usa a costumeira desculpa do aquilo-que-eu-sentia-não-era-amor.

Tudo bem, eu concordo que, muitas vezes, agente acaba se relacionando com as pessoas por outros motivos que não sejam o amor propriamente dito. E olha que não to falando dos motivos canalhas - dinheiro, empregos melhores, interesse, etc -, mas de você confundir amizade com amor, ou ainda de ter a certeza que vai sim, se apaixonar por aquele cara que está a fim de você há meses, só porque você se decepcionou demais e precisa de alguém que te ame, agora. Mas vai, não vamos mergulhar na hipocrisia, algumas vezes, você sente que de fato, amava aquela pessoa, mas de repente - não mais que de repente -, acabou. E aí tem todas aquelas histórias de términos de namoro. Quando se termina mal são as decepções, as mentiras, as traições. Quando se termina bem foi a rotina, a incompatibilidade de gênios, o acomodamento.

A verdade, e digo e planto aqui, como absoluta - como toda regra e sua excessão, obviamente, que todos, absolutamente todos os relacionamentos que portavam o amor dentro de si, acabaram pela falta de insegurança. Percebam que não falei excesso de segurança, como muitos repetem, mas sim uma falta, a falta daquilo que não é infalível.

Com o tempo, e o amor, porque agente só sente realmente protegido quando há amor, nós costumamos alçar o relacionamento ao posto dos romances-que-deram-certo. E não nos importamos mais se ele não liga na hora que combinou. Também você não fica aflita se ele vai achar que você está deslumbrante hoje. Afinal, isso não importa, vocês se amam, de qualquer jeito, feios, gordos, cansados depois de um dia inteiro de trabalho. Ele está tão inserido na sua vida que você, numa tentativa de exalar o amor, diz aos quatro ventos que não saberia mais viver sem ele. Mas nem passa pela sua cabeça que você esqueceu do mais importante.

Deixe seu coração se despedaçar novamente quando ele não ligar pra você na hora combinada. Saia mais cedo do trabalho, compre a pizza que ele mais gosta e pare o carro na frente da casa dele e hesite pelo menos uns 3 minutos, pensando se ele iria gostar da surpresa ou você estaria se intrometendo demais - como quando na primeira vez que você fez uam surpresa. Sinta seu coração disparar quando ele te chamar pra ir ao cinema, mesmo que vocês já tenham ido milhões de vezes ao cinema juntos, só pelo fato de que ele chamou você, pra ficar abraço durante duas horas, e depois dividir a cerveja, e os pensamentos. E quando ele te abraçar, feche os olhos, e tenha a certeza de que foi novamente a primeira vez, mas que pode acabar no próximo minuto. Sinta um frio na barriga a cada vez que se separarem, e no fundo, mesmo que você tenha a certeza de que vocês nunca vão deixar de se amar, sinta medo de perdê-lo, realmente.

Seja inseguro sempre, esqueça as garantias, corra todos os riscos. E ame hoje, como se fosse a última vez.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Suicídio

Pela primeira vez ela sentia nojo. Queria não sentir mais o cheiro da pele dele na sua. Sentia que seu corpo se condicionava pelo dele, nada mais era seu: os gestos, as palavras, até sua respiração era dele. Duvidava se ao menos seu sangue havia restado, imaculado.
Tomou diversos banhos, esfregou a pele até sangrar, e ainda conseguia sentir o odor dele exalando dos seus poros. Perfumes, cremes, desodorantes, nem a química mais forte surtia efeito.
Olhou em volta de si, estava sozinha, perdida em meio às meias esquecidas embaixo da cama, suspeitava. Tinha certeza de ter se perdido em algum momento anterior à ele mas, por mais que forçasse a memória, sentia que até seu passado ele havia levado para si. Não se lembrava de absolutamente nada que se antepusesse ao dia que se conheceram. Tinha se transformado num personagem, sem controle sobre suas ações, não se livraria do estigma nem do enredo aos quais estava predestinada.
A ausência de si mesma se contrastava com a plenitude dele em seu corpo. A falta de lucidez que acompanhava a dor, a fazia quase duvidar e cambalear entre a tênue linha que separa realidade e ilusão: sentia-se ele.
Olhou-se no espelho, continuava a ter seios e cabelos compridos. Tocou-se, e sentia as mãos dele sorvendo sua pele. Parecia que não havia saída, era uma condenação, um castigo.
E num espasmo teve a impressão de ter alcançado seu limite. Limite que por muito tempo almejou e convictamente buscava, travestido de felicidade. Desmaiada, caída em si, sentiu a profusão de pensamentos, e não conseguindo distinguir seus remetentes, enxergou a claridade queimando seu rosto, a felicidade a estava matando, lentamente.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A grande metáfora sobre a vida ou Como a gente se engana fácil


"Qual é o ponto de partida da vocação de escritor?(...)crítica à vida como ela é e ao mundo real, bem como seu desejo de substituí-los por outros, fabricados por sua imaginação e desejos."
Mario Vargas Lhosa



Estou parada o observando. É o terceiro dia que ele está lá: cabelos mais bracos que grisalhos, um notebook, um livro, um bloco de papel e uma caneta; e depois de escrever freneticamente, lê, apaga e, escreve novamente. Assim durante os três dias que senta na mesa do lado. Faz sol, calor e a paisagem é paradisíaca. Todos estão na água, rindo e se divertindo, tal qual um comercial de televisão. Mas ele está lá, de roupas, sério e carrancudo, mau-humorado e, que esta altura já tinha virado rotina, escrevendo.

- Ele é escritor, eu tenho certeza.
- O Rubem Braga já morreu?
- Não, é aquele cara que eu não lembro o nome, o Rui-não-sei-que-lá, eu tenho certeza.

E assim a conversa se disseminava pelos cantos. De fato, aquela situação era curiosa, e tinha toda uma áura de mistério. Tentava à todo custo descobrir sobre o que ele escrevia, mas não tinha sucesso nenhum. Enquanto nosso pseudo-escritor saía pra ir ao banheiro - sim, porque só pra isso ele largava sua árdua tarefa-, sorrateiramente estiquei meus olhos numa dimensão tão absurda que eles pareciam que se descolariam da minha retina nos próximos segundos, e vi algo escrito. Um espreguiço, jogo a toalha no chão, e quando me levanto, leio em letras de criança: "Papai, eu te amo." Mas a decepção foi logo substituída pela sensação de que, se ele escondia o que escrevia, era porque devia ser importante, famoso, reconhecido, e só eu, na minha santa ignorância não sabia quem era.

Me enfiei na única livraria da praia, e livro por livro, autor por autor, foto por foto, descobri uns três escritores que poderiam ser ele. Mas um foi descartado, era auto-ajuda, e claro que o escritor fantasioso não escreveria livros de auto-ajuda. Seria um poeta ou romancista, isso já estava decidido.

Observei o que comia na janta, como segurava os talheres, como falava com as filhas, como tratava a mulher. Anotei em pensamento cada gesto, cada palavra, cada som que ele emitia. Um escritor de verdade, eu pensava emocionada. Eu nunca conheci um escritor, nem vi nenhum em pleno momento criativo ao meu lado, durante quase uma semana. Há essa altura já tinha convicção que a sua inspiração advinha da minha pessoa, que talvez eu fosse a personagem principal do romance, ou quem sabe ainda melhor, o título do seu próximo livro de poesias. E a minha curiosidade tinha chegado ao ponto de querer saber qual nome ele teria me dado em seus escritos, talvez até fizesse uma tatuagem com ele, em homenagem, é claro.

Mais um dia havia se passado, dali a pouco eu iria embora sem nem me apresentar pro futuro ganhador do Nobel de Literatura. O pânico me atingiu durante a madrugada e tinha tomado a decisão, na manhã seguinte iria me apresentar. Falaria qualquer coisa como você gosta de poesia? Pois escreve? ou talvez melhor: Qual seu gênero preferido? Crônicas? Romances?Contos? Depois conversaríamos durante horas, ele me contaria sobre seu romance e eu sobre minhas poesias. Mas algo, nesse exato momento de profunda divagação, me tirou a concentração.

Levantei da espriguiçadeira e me sentei na mesa. Ele conversava com algumas pessoas e dizia algo sobre uma construtora. Como assim, pensei. Deve estar falando de alguma outra pessoa, claro. E, como quem não quer nada, entrei na conversa. Estava empolgada, finalmente poderia por em prática o que ensaiava mentalmente há minutos atrás. Mas não, em uma fração de segundos meu mundo tinha desmoronado. Ele era dono de uma construtora, e não, não escrevia, fazia contas durantes todos esses dias. Estava preocupado em se ausentar durante tanto tempo do serviço, que trabalhava via email, atento e cuidadoso, pra que nada saísse do lugar enquanto estivesse fora.

Não aguentei o baque, me levantei sem pedir licença e saí. Andei pra longe, em segundos eu não era mais a inspiração da personagem mais famosa de toda a história da literatura nacional. Eu simplesmente passei dias observando um velho gordo e mau humorado, que não diferia em absolutamente nada de todos os velhos gordos e mau-humorados que conheci durante toda a minha vida.

Se eu não tivesse me esforçado tanto pra descobrir quem era, essa crônica seria diferente, seria sobre o escritor desconhecido que sentou-se ao meu lado durante uma semana. Mas se eu não descobrisse que ele era mais um cara comum, eu também não teria percebido que a pesoa está nos olhos de quem vê. Que não importa o que as coisas de fato são na realidade, mas como eu as observo, com quais lentes eu encaro a vida. Afinal, se eu pensasse que ele fosse um velho comum, eu teria uma história a menos pra contar, uma vida a menos pra viver, e continuaria acreditando que todas as pessoas são chatas e desinteressantes. Pelo menos depois disso, eu tenho certeza de que, pelo menos eu, não sou.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Meu nome é Laura, tenho 21 anos e curso Letras.

É assim que normalmente me apresento naquelas situações constrangedoras em que você começa um curso novo e cada um tem que falar um pouco sobre si. Eu acho completamente inútil, e se a intenção é ser informativo, só serve pra confundir.
As pessoas costumam falar que eu sou fechada demais, pouco simpática, que estou querendo fazer tipo, nessas situações. Aí o professor, ou quem quer seja que esteja numa posição hierárquica mais favorável que a maioria, diz “fala mais sobre você, do que você gosta?”. Aí eu não penso quase nada e falo o mais óbvio: “ah, literatura, cinema, teatro, essas coisas”. E deixo as pessoas mais satisfeitas, porque, normalmente, elas se satisfazem com pouco, muito pouco.
Mas elas não sabem, e talvez nunca vão saber que, até os 17 anos eu odiava me chamar Laura, achava que, ou era nome de velha, ou de gordas rejeitadas. E, como eu não podia em encaixar na primeira alternativa, eu achava o nome uma espécie de maldição dos meus pais, pra que assim, eles se satisfizessem com o que quer que eles fossem, afinal, eu sempre seria pior. Mas passou. Sem motivos ou explicações, simplesmente era uma bobagem de adolescente rejeitada que, graças a deus, passa com o tempo.
As pessoas também nunca vão imaginar que apesar do meu tamanho P e dos meus 1.52cm, eu tenho uma tendência a me achar incrivelmente gorda e grande de vez em quando. E isso está diretamente ligado ao meu estado de espírito. E o meu estado de espírito está diretamente ligado ao imprevisível, ou à Lua – na melhor das hipóteses. O que faz com que eu seja uma pessoa quase sempre insuportável.
Mas eu tenho uma qualidade, eu gosto da maioria das pessoas que existem no mundo – e com elas, o meu humor é mais generoso. Eu poderia falar, numa dessas apresentações ridículas, que eu sou uma pessoa gostadeira. Na verdade eu sou de extremos, ou eu gosto ou não gosto, não existe aquele meio termo “não cheira nem fede” na minha vida. Eu acho as pessoas interessantíssimas, e prefiro gostar delas do que odiá-las. Na verdade, o ódio normalmente me vem como uma tentativa frustada de amor. É um amor mal canalizado, porque às vezes – e isso vai soar muito piegas -, eu me sinto tão cheia de vontade de amar os outros, e quando as pessoas não aceitam esse meu amor que é grátis, que ela poderia deixar encostado que nem o abridor de coco que ela ganhou de brinde na última ida pro supermercado, eu fico irremediavelmente irritada. E se você não quer o meu amor, você também não pode querer a minha simpatia. Até porque eu não sei ser falsa. Eu não gosto de você, e deixo isso bem claro pra quem quiser ver. Não tenho vergonha nenhuma. E o que eu puder fazer pra ver você longe de mim, eu vou fazer.
É, eu deveria dizer também que apesar de cheia de amor eu sou cheia de maldade também. O problema é que as maldades ficam sempre na minha cabeça, sempre que eu armo um plano pra satisfazer meus desejos de vingança, vem aquelas malditas ética e moral buzinar na minha orelha, e eu morro de remorso e me acho a bruxa malvada do leste por tem pensado em tais atrocidades. E aí eu acabo fazendo o papel de boazinha na maioria das vezes. Digo na maioria, porque alguma hora a coisa passa do meu limite aceitável e eu passo a fingir que a pessoa simplesmente não existe, e quem insistir e tentar me convencer do contrário, entra pra lista dos que “não estão mortos mas morreram” na vida da Laura.
Por isso que eu acho tão inútil dizer que eu sou a Laura, tenho 21 anos e faço Letras.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dizem que na dor a inspiração vem, mas eu só sinto as lágrimas.
E fico com elas.

domingo, 4 de janeiro de 2009

escala

lateja silabicamente a dor.
dói rente e miserável
fatal e solitária
lasciva:

invertendo a ordem natural dos acontecimentos, lá se chega na frente, e se arrasta, mantendo o ciclo e a lógica, mas tornando-se a primeira e a última. O grito pungente da dor que circunda o ser.

sábado, 3 de janeiro de 2009

esta(c)los

Oh yeah.
ano-novo-vida-nova -adoro o dueto.
praia, fogos, champagne, sorrisos e abraços. um festival de pedidos, de mentes desejosas, cheias de esperança em novos sucessos. o problema todo é que eu não gosto disso. sim, sim, eu sou chatíssima. não acredito em ano novo e, muito menos nas tão famosas resoluções de ano novo. me deprime sinceramente pensar numa listinha de objetivos pros próximos 365 dias. em primeiro lugar porque , depois que você lê schopenhauer, essas "metas pro próximo ano" não passam de uma tentativa de fugir do tédio, que cedo ou tarde, será inevitável. E depois, se eu não consigo nem me manter numa porcaria de um regime que dura 2 semanas, como eu vou em manter em resoluções pro ano todo?
As coisas mudam, as pessoas mudam, eu mudo e você muda. Todos, inevitavelmente mudamos. Sem pausas para pensar, sem balanço de dados, sem tempo ou programação. Quando você percebe, você pediu uma salada de brócolis achando uma delícia. E sem maiores explicações você passou a ser pontual, pontualíssima, e a - pelo amor dos deuses! - se irritar profundamente com que sem atrasa mais do que 5 minutos do combinado. E você agora, talvez nem se lembre mais de todos os namorados que perdeu por deixá-los horas - pra ser eufêmica, claro -, esperando na frente do cinema. Pois é, o cinema continua no mesmo lugar, mas hoje é você quem não admite um mínimo de atraso. Então pra quê determinar objetivos? Pra que traçar planos para abril, junho e outubro ? Porque afirmar que você precisa perder 5 quilos até abril, como se você não conguisse, se tornasse uma total fracassada. Arranjar um emprego até maio? E se surgir uma oportunidade de estudar fora, assim, na melhor universidade da Inglaterra? O que você faz? Vai pegar sua listinha de resoluções pra 2009 e falar: ah, bom, eu vou continuar procurando um emprego. E se sua melhor amiga ficar internada por dias no hospital e que, pra fazê-la feliz sabe que vai ter que entupi-la de docinhos que ela adora, você realmente vai deixar de come-los só pra não fugir da resolução de abril ?
Não faça planos, não sucumba sua felicidade à moldes pré-fabricados. Faça sempre o melhor de si, e deixe que as suas estalactites se formem, sozinhas e originais. Formadas por tudo que sai de você, livres, constituindo aquilo que há de mais belo e verdadeiro. O que você foi e o que você é, comemore o seu passado e se liberte para o futuro.