sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A grande metáfora sobre a vida ou Como a gente se engana fácil


"Qual é o ponto de partida da vocação de escritor?(...)crítica à vida como ela é e ao mundo real, bem como seu desejo de substituí-los por outros, fabricados por sua imaginação e desejos."
Mario Vargas Lhosa



Estou parada o observando. É o terceiro dia que ele está lá: cabelos mais bracos que grisalhos, um notebook, um livro, um bloco de papel e uma caneta; e depois de escrever freneticamente, lê, apaga e, escreve novamente. Assim durante os três dias que senta na mesa do lado. Faz sol, calor e a paisagem é paradisíaca. Todos estão na água, rindo e se divertindo, tal qual um comercial de televisão. Mas ele está lá, de roupas, sério e carrancudo, mau-humorado e, que esta altura já tinha virado rotina, escrevendo.

- Ele é escritor, eu tenho certeza.
- O Rubem Braga já morreu?
- Não, é aquele cara que eu não lembro o nome, o Rui-não-sei-que-lá, eu tenho certeza.

E assim a conversa se disseminava pelos cantos. De fato, aquela situação era curiosa, e tinha toda uma áura de mistério. Tentava à todo custo descobrir sobre o que ele escrevia, mas não tinha sucesso nenhum. Enquanto nosso pseudo-escritor saía pra ir ao banheiro - sim, porque só pra isso ele largava sua árdua tarefa-, sorrateiramente estiquei meus olhos numa dimensão tão absurda que eles pareciam que se descolariam da minha retina nos próximos segundos, e vi algo escrito. Um espreguiço, jogo a toalha no chão, e quando me levanto, leio em letras de criança: "Papai, eu te amo." Mas a decepção foi logo substituída pela sensação de que, se ele escondia o que escrevia, era porque devia ser importante, famoso, reconhecido, e só eu, na minha santa ignorância não sabia quem era.

Me enfiei na única livraria da praia, e livro por livro, autor por autor, foto por foto, descobri uns três escritores que poderiam ser ele. Mas um foi descartado, era auto-ajuda, e claro que o escritor fantasioso não escreveria livros de auto-ajuda. Seria um poeta ou romancista, isso já estava decidido.

Observei o que comia na janta, como segurava os talheres, como falava com as filhas, como tratava a mulher. Anotei em pensamento cada gesto, cada palavra, cada som que ele emitia. Um escritor de verdade, eu pensava emocionada. Eu nunca conheci um escritor, nem vi nenhum em pleno momento criativo ao meu lado, durante quase uma semana. Há essa altura já tinha convicção que a sua inspiração advinha da minha pessoa, que talvez eu fosse a personagem principal do romance, ou quem sabe ainda melhor, o título do seu próximo livro de poesias. E a minha curiosidade tinha chegado ao ponto de querer saber qual nome ele teria me dado em seus escritos, talvez até fizesse uma tatuagem com ele, em homenagem, é claro.

Mais um dia havia se passado, dali a pouco eu iria embora sem nem me apresentar pro futuro ganhador do Nobel de Literatura. O pânico me atingiu durante a madrugada e tinha tomado a decisão, na manhã seguinte iria me apresentar. Falaria qualquer coisa como você gosta de poesia? Pois escreve? ou talvez melhor: Qual seu gênero preferido? Crônicas? Romances?Contos? Depois conversaríamos durante horas, ele me contaria sobre seu romance e eu sobre minhas poesias. Mas algo, nesse exato momento de profunda divagação, me tirou a concentração.

Levantei da espriguiçadeira e me sentei na mesa. Ele conversava com algumas pessoas e dizia algo sobre uma construtora. Como assim, pensei. Deve estar falando de alguma outra pessoa, claro. E, como quem não quer nada, entrei na conversa. Estava empolgada, finalmente poderia por em prática o que ensaiava mentalmente há minutos atrás. Mas não, em uma fração de segundos meu mundo tinha desmoronado. Ele era dono de uma construtora, e não, não escrevia, fazia contas durantes todos esses dias. Estava preocupado em se ausentar durante tanto tempo do serviço, que trabalhava via email, atento e cuidadoso, pra que nada saísse do lugar enquanto estivesse fora.

Não aguentei o baque, me levantei sem pedir licença e saí. Andei pra longe, em segundos eu não era mais a inspiração da personagem mais famosa de toda a história da literatura nacional. Eu simplesmente passei dias observando um velho gordo e mau humorado, que não diferia em absolutamente nada de todos os velhos gordos e mau-humorados que conheci durante toda a minha vida.

Se eu não tivesse me esforçado tanto pra descobrir quem era, essa crônica seria diferente, seria sobre o escritor desconhecido que sentou-se ao meu lado durante uma semana. Mas se eu não descobrisse que ele era mais um cara comum, eu também não teria percebido que a pesoa está nos olhos de quem vê. Que não importa o que as coisas de fato são na realidade, mas como eu as observo, com quais lentes eu encaro a vida. Afinal, se eu pensasse que ele fosse um velho comum, eu teria uma história a menos pra contar, uma vida a menos pra viver, e continuaria acreditando que todas as pessoas são chatas e desinteressantes. Pelo menos depois disso, eu tenho certeza de que, pelo menos eu, não sou.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Meu nome é Laura, tenho 21 anos e curso Letras.

É assim que normalmente me apresento naquelas situações constrangedoras em que você começa um curso novo e cada um tem que falar um pouco sobre si. Eu acho completamente inútil, e se a intenção é ser informativo, só serve pra confundir.
As pessoas costumam falar que eu sou fechada demais, pouco simpática, que estou querendo fazer tipo, nessas situações. Aí o professor, ou quem quer seja que esteja numa posição hierárquica mais favorável que a maioria, diz “fala mais sobre você, do que você gosta?”. Aí eu não penso quase nada e falo o mais óbvio: “ah, literatura, cinema, teatro, essas coisas”. E deixo as pessoas mais satisfeitas, porque, normalmente, elas se satisfazem com pouco, muito pouco.
Mas elas não sabem, e talvez nunca vão saber que, até os 17 anos eu odiava me chamar Laura, achava que, ou era nome de velha, ou de gordas rejeitadas. E, como eu não podia em encaixar na primeira alternativa, eu achava o nome uma espécie de maldição dos meus pais, pra que assim, eles se satisfizessem com o que quer que eles fossem, afinal, eu sempre seria pior. Mas passou. Sem motivos ou explicações, simplesmente era uma bobagem de adolescente rejeitada que, graças a deus, passa com o tempo.
As pessoas também nunca vão imaginar que apesar do meu tamanho P e dos meus 1.52cm, eu tenho uma tendência a me achar incrivelmente gorda e grande de vez em quando. E isso está diretamente ligado ao meu estado de espírito. E o meu estado de espírito está diretamente ligado ao imprevisível, ou à Lua – na melhor das hipóteses. O que faz com que eu seja uma pessoa quase sempre insuportável.
Mas eu tenho uma qualidade, eu gosto da maioria das pessoas que existem no mundo – e com elas, o meu humor é mais generoso. Eu poderia falar, numa dessas apresentações ridículas, que eu sou uma pessoa gostadeira. Na verdade eu sou de extremos, ou eu gosto ou não gosto, não existe aquele meio termo “não cheira nem fede” na minha vida. Eu acho as pessoas interessantíssimas, e prefiro gostar delas do que odiá-las. Na verdade, o ódio normalmente me vem como uma tentativa frustada de amor. É um amor mal canalizado, porque às vezes – e isso vai soar muito piegas -, eu me sinto tão cheia de vontade de amar os outros, e quando as pessoas não aceitam esse meu amor que é grátis, que ela poderia deixar encostado que nem o abridor de coco que ela ganhou de brinde na última ida pro supermercado, eu fico irremediavelmente irritada. E se você não quer o meu amor, você também não pode querer a minha simpatia. Até porque eu não sei ser falsa. Eu não gosto de você, e deixo isso bem claro pra quem quiser ver. Não tenho vergonha nenhuma. E o que eu puder fazer pra ver você longe de mim, eu vou fazer.
É, eu deveria dizer também que apesar de cheia de amor eu sou cheia de maldade também. O problema é que as maldades ficam sempre na minha cabeça, sempre que eu armo um plano pra satisfazer meus desejos de vingança, vem aquelas malditas ética e moral buzinar na minha orelha, e eu morro de remorso e me acho a bruxa malvada do leste por tem pensado em tais atrocidades. E aí eu acabo fazendo o papel de boazinha na maioria das vezes. Digo na maioria, porque alguma hora a coisa passa do meu limite aceitável e eu passo a fingir que a pessoa simplesmente não existe, e quem insistir e tentar me convencer do contrário, entra pra lista dos que “não estão mortos mas morreram” na vida da Laura.
Por isso que eu acho tão inútil dizer que eu sou a Laura, tenho 21 anos e faço Letras.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dizem que na dor a inspiração vem, mas eu só sinto as lágrimas.
E fico com elas.

domingo, 4 de janeiro de 2009

escala

lateja silabicamente a dor.
dói rente e miserável
fatal e solitária
lasciva:

invertendo a ordem natural dos acontecimentos, lá se chega na frente, e se arrasta, mantendo o ciclo e a lógica, mas tornando-se a primeira e a última. O grito pungente da dor que circunda o ser.

sábado, 3 de janeiro de 2009

esta(c)los

Oh yeah.
ano-novo-vida-nova -adoro o dueto.
praia, fogos, champagne, sorrisos e abraços. um festival de pedidos, de mentes desejosas, cheias de esperança em novos sucessos. o problema todo é que eu não gosto disso. sim, sim, eu sou chatíssima. não acredito em ano novo e, muito menos nas tão famosas resoluções de ano novo. me deprime sinceramente pensar numa listinha de objetivos pros próximos 365 dias. em primeiro lugar porque , depois que você lê schopenhauer, essas "metas pro próximo ano" não passam de uma tentativa de fugir do tédio, que cedo ou tarde, será inevitável. E depois, se eu não consigo nem me manter numa porcaria de um regime que dura 2 semanas, como eu vou em manter em resoluções pro ano todo?
As coisas mudam, as pessoas mudam, eu mudo e você muda. Todos, inevitavelmente mudamos. Sem pausas para pensar, sem balanço de dados, sem tempo ou programação. Quando você percebe, você pediu uma salada de brócolis achando uma delícia. E sem maiores explicações você passou a ser pontual, pontualíssima, e a - pelo amor dos deuses! - se irritar profundamente com que sem atrasa mais do que 5 minutos do combinado. E você agora, talvez nem se lembre mais de todos os namorados que perdeu por deixá-los horas - pra ser eufêmica, claro -, esperando na frente do cinema. Pois é, o cinema continua no mesmo lugar, mas hoje é você quem não admite um mínimo de atraso. Então pra quê determinar objetivos? Pra que traçar planos para abril, junho e outubro ? Porque afirmar que você precisa perder 5 quilos até abril, como se você não conguisse, se tornasse uma total fracassada. Arranjar um emprego até maio? E se surgir uma oportunidade de estudar fora, assim, na melhor universidade da Inglaterra? O que você faz? Vai pegar sua listinha de resoluções pra 2009 e falar: ah, bom, eu vou continuar procurando um emprego. E se sua melhor amiga ficar internada por dias no hospital e que, pra fazê-la feliz sabe que vai ter que entupi-la de docinhos que ela adora, você realmente vai deixar de come-los só pra não fugir da resolução de abril ?
Não faça planos, não sucumba sua felicidade à moldes pré-fabricados. Faça sempre o melhor de si, e deixe que as suas estalactites se formem, sozinhas e originais. Formadas por tudo que sai de você, livres, constituindo aquilo que há de mais belo e verdadeiro. O que você foi e o que você é, comemore o seu passado e se liberte para o futuro.