Nunca gostei de escritas condicionadas, temas e fôrmas. Não gosto de nada que pode o subjetivismo, acredito que a escrita dependa de impulsos, internos e externos. Mas é preciso cuidado com aquilo que vem de fora, a cautela nunca é demais quando falamos em sugestão. Por isso eu acho dificílima a tarefa de ensinar a escrever. Ano passado fiz um curso que eu poderia chamar grotescamente de formação de poetas e, muito mais do que escrever, aprendi como se estimula a escrita. Digo estimula, porque supõe-se que escrever, você já aprendeu aos seis anos. Mas continuemos, primeiro é preciso conteúdo. Não adianta se bater na mesma tecla a todo momento, e caso seja essa a intenção, é preciso ser perspicaz, tirar a monotonia de uma reflexão já condicionada e aprofundar os ângulos que formem seu tema. O professor, ou o estimulador de futuros escritores, como prefiro dizer, deve ter em mente que é preciso arrancar aquilo que há de mais pulsante em cada um, e isso deve ser um violento estupro. Para se refletir sobre o que se escreve precisa-se colocar o estudante em posição desconfortável, mais que isso, precisa-se exigir dele o máximo de esforço, físico e mental durante o exercício da escrita. Isso porque escrever é doloroso, é imprescindível a destreza de pensamentos e o sincronismo entre dedos e mente. Por isso, o tutor deve acompanhar o processo, e até mesmo invadi-lo quando necessário. Colocar o sujeito em xeque. Atar suas mãos e dizer escreva. Não bastam discussões não empíricas, atingir a superficialidade do que se pode ser é desprezível. Mas para isso é preciso de um olhar além, de uma sensibilidade a mais, de bases sólidas, para que não haja a destruição total. Deve-se criar um ambiente de exercício da liberdade, para sentir-se a prisão em que ela nos coloca.
"Escrever existe por si mesmo? Não. É apenas o reflexo de alguma coisa que pergunta. Eu trabalho com o inesperado. Escrevo como escrevo sem saber como e porquê - é por fatalidade de voz. O meu timbre sou eu. Escrever é uma indagção. É assim?"
Clarice Lispector, Um sopro de vida (Pulsações)p.14.
sábado, 13 de março de 2010
domingo, 7 de março de 2010
Passagem
Sufoco. O sol estava brilhando quando ela deu o primeiro respiro do dia. Tinha dormido com a janela aberta e, como sempre, tinha acordado com o primeiro raio de sol. A casa estava silenciosa, e mesmo depois de tanto tempo, ainda estranhava estar sozinha naquele apartamento. Não se lembrava do que tinha pra fazer naquele dia, mas suspeitava de ser um dia seco, sem água que pingasse. Deu duas fortes espreguiçadas e se levantou. Procurou pelo seu céu, branco e rabiscado, uma frase que a fizesse começar o dia suavemente. Sabia de cor tudo o que, num dia frio e solitário de inverno, escreveu com tanto cuidado no teto de seu quarto. Que seja doce, achou. Parecia muito clichê, mas ela sabia que era mais uma daquelas pessoas que tanto criticava. Em pensamento, era só frases feitas, toques profundos, jatos de água quente. Mas detestava se mutilar com julgamentos sobre si mesma. Era dura e cruel, muito mais consigo do que com os outros. E não sabia como tirar todo o amor que tinha dentro de si, por isso tinha escolhido a solidão. Seu peito latejava, ela sentia toda a imensidão pulsando dentro dela e sem poder dar a ninguém. Pedia todos os dias que o amor estancasse dentro de si. Precisava de paz, precisava de pouco para que pudesse doar. Não seriam mais possíveis transfusões. Ela só queria um toque. De leve. E que a fizesse sorrir. Só.
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