domingo, 7 de março de 2010

Passagem

Sufoco. O sol estava brilhando quando ela deu o primeiro respiro do dia. Tinha dormido com a janela aberta e, como sempre, tinha acordado com o primeiro raio de sol. A casa estava silenciosa, e mesmo depois de tanto tempo, ainda estranhava estar sozinha naquele apartamento. Não se lembrava do que tinha pra fazer naquele dia, mas suspeitava de ser um dia seco, sem água que pingasse. Deu duas fortes espreguiçadas e se levantou. Procurou pelo seu céu, branco e rabiscado, uma frase que a fizesse começar o dia suavemente. Sabia de cor tudo o que, num dia frio e solitário de inverno, escreveu com tanto cuidado no teto de seu quarto. Que seja doce, achou. Parecia muito clichê, mas ela sabia que era mais uma daquelas pessoas que tanto criticava. Em pensamento, era só frases feitas, toques profundos, jatos de água quente. Mas detestava se mutilar com julgamentos sobre si mesma. Era dura e cruel, muito mais consigo do que com os outros. E não sabia como tirar todo o amor que tinha dentro de si, por isso tinha escolhido a solidão. Seu peito latejava, ela sentia toda a imensidão pulsando dentro dela e sem poder dar a ninguém. Pedia todos os dias que o amor estancasse dentro de si. Precisava de paz, precisava de pouco para que pudesse doar. Não seriam mais possíveis transfusões. Ela só queria um toque. De leve. E que a fizesse sorrir. Só.

Um comentário:

Fran Noya disse...

Passar aqui sempre me deixa deprimida de saudade.