domingo, 14 de setembro de 2008
Braços que não alcançam as paredes.
A frase ao meio
o que diferencia o cheio do vazio
um ponto de exclamação
um grito no vácuo
palavras que se misturam
sentimento de cimento
mento minto mente
mente pensa, sente ?
concreto que é cinza
anilina, mas não pinta
como se eu tivesse tudo na mão
como se eu só não tivesse mão
comparo no desamparo
enlouqueço entristeço
só perco, me perco
labririnto do erro
medo do medo
é medo de sentir medo
diarréia: líquido do que se sente
alguns pedaços e tudo água
o fedor que impregna o pensamento
pensa que minto e tento
invejável a capacidade de não se ser
meu senti-mento
tenta grudar um tijolo no outro
sem expectativas
marrons como a bosta que sai do cu
realidade crua, nua
tudo que suja
só o que suja é válido
te move ou te transforma
só a lama perfura
só o mangue une.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
legitimidade
Ela é insuportável, foi o que ele disse dois dias depois, pra quarta garrafa de cerveja. Era a primeira vez que saia da cama, depois de terem estilhaçado todas as dores em pedaços inconsoláveis. Ele não fazia a puta idéia de onde ela estaria agora, você nunca fazia – latejava na parte mais funda do seu peito. Das paredes ainda escorria vinho, ou sangue. A transformação e multiplicação das dores, o coração explodindo, o amor vindo à tona no momento menos propício, como num milagre as avessas. Seus braços dançavam descoordenamente pelo vácuo do que havia restado do amor. Abriu os olhos e podia ver-se sendo sugado para aquilo que havia de mais íntimo dentro de si – espantosamente era ela. Como uma flor brotando na velocidade da luz, num flash-back dentro do seu peito. Ele podia ver e sentir. A dor rasgando o que havia de mais verticalizado em sua consciência. Dos seus poros escorriam a mentira do que tentara ser durante anos. A dor se alastrava e as palavras se tornavam zumbidos intermitentes, a grande orquestra do vazio. Não haviam feridas, ele presenciou seu genocídio interno. Como um ovo quebrado, nu e jogado entre as traças que ele nunca nem tinha reparado que estavam naquele canto da sala, não havia moralidade que lhe permitisse pedir perdão. Também não havia sentimento de culpa, mas um destroçamento total do homem que ele pensava que fosse. Ela pensava estar vingada, pensava que havia mostrado o que havia de mais sujo dentro dele.
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