quinta-feira, 4 de setembro de 2008
legitimidade
Ela é insuportável, foi o que ele disse dois dias depois, pra quarta garrafa de cerveja. Era a primeira vez que saia da cama, depois de terem estilhaçado todas as dores em pedaços inconsoláveis. Ele não fazia a puta idéia de onde ela estaria agora, você nunca fazia – latejava na parte mais funda do seu peito. Das paredes ainda escorria vinho, ou sangue. A transformação e multiplicação das dores, o coração explodindo, o amor vindo à tona no momento menos propício, como num milagre as avessas. Seus braços dançavam descoordenamente pelo vácuo do que havia restado do amor. Abriu os olhos e podia ver-se sendo sugado para aquilo que havia de mais íntimo dentro de si – espantosamente era ela. Como uma flor brotando na velocidade da luz, num flash-back dentro do seu peito. Ele podia ver e sentir. A dor rasgando o que havia de mais verticalizado em sua consciência. Dos seus poros escorriam a mentira do que tentara ser durante anos. A dor se alastrava e as palavras se tornavam zumbidos intermitentes, a grande orquestra do vazio. Não haviam feridas, ele presenciou seu genocídio interno. Como um ovo quebrado, nu e jogado entre as traças que ele nunca nem tinha reparado que estavam naquele canto da sala, não havia moralidade que lhe permitisse pedir perdão. Também não havia sentimento de culpa, mas um destroçamento total do homem que ele pensava que fosse. Ela pensava estar vingada, pensava que havia mostrado o que havia de mais sujo dentro dele.
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