É assim que normalmente me apresento naquelas situações constrangedoras em que você começa um curso novo e cada um tem que falar um pouco sobre si. Eu acho completamente inútil, e se a intenção é ser informativo, só serve pra confundir.
As pessoas costumam falar que eu sou fechada demais, pouco simpática, que estou querendo fazer tipo, nessas situações. Aí o professor, ou quem quer seja que esteja numa posição hierárquica mais favorável que a maioria, diz “fala mais sobre você, do que você gosta?”. Aí eu não penso quase nada e falo o mais óbvio: “ah, literatura, cinema, teatro, essas coisas”. E deixo as pessoas mais satisfeitas, porque, normalmente, elas se satisfazem com pouco, muito pouco.
Mas elas não sabem, e talvez nunca vão saber que, até os 17 anos eu odiava me chamar Laura, achava que, ou era nome de velha, ou de gordas rejeitadas. E, como eu não podia em encaixar na primeira alternativa, eu achava o nome uma espécie de maldição dos meus pais, pra que assim, eles se satisfizessem com o que quer que eles fossem, afinal, eu sempre seria pior. Mas passou. Sem motivos ou explicações, simplesmente era uma bobagem de adolescente rejeitada que, graças a deus, passa com o tempo.
As pessoas também nunca vão imaginar que apesar do meu tamanho P e dos meus 1.52cm, eu tenho uma tendência a me achar incrivelmente gorda e grande de vez em quando. E isso está diretamente ligado ao meu estado de espírito. E o meu estado de espírito está diretamente ligado ao imprevisível, ou à Lua – na melhor das hipóteses. O que faz com que eu seja uma pessoa quase sempre insuportável.
Mas eu tenho uma qualidade, eu gosto da maioria das pessoas que existem no mundo – e com elas, o meu humor é mais generoso. Eu poderia falar, numa dessas apresentações ridículas, que eu sou uma pessoa gostadeira. Na verdade eu sou de extremos, ou eu gosto ou não gosto, não existe aquele meio termo “não cheira nem fede” na minha vida. Eu acho as pessoas interessantíssimas, e prefiro gostar delas do que odiá-las. Na verdade, o ódio normalmente me vem como uma tentativa frustada de amor. É um amor mal canalizado, porque às vezes – e isso vai soar muito piegas -, eu me sinto tão cheia de vontade de amar os outros, e quando as pessoas não aceitam esse meu amor que é grátis, que ela poderia deixar encostado que nem o abridor de coco que ela ganhou de brinde na última ida pro supermercado, eu fico irremediavelmente irritada. E se você não quer o meu amor, você também não pode querer a minha simpatia. Até porque eu não sei ser falsa. Eu não gosto de você, e deixo isso bem claro pra quem quiser ver. Não tenho vergonha nenhuma. E o que eu puder fazer pra ver você longe de mim, eu vou fazer.
É, eu deveria dizer também que apesar de cheia de amor eu sou cheia de maldade também. O problema é que as maldades ficam sempre na minha cabeça, sempre que eu armo um plano pra satisfazer meus desejos de vingança, vem aquelas malditas ética e moral buzinar na minha orelha, e eu morro de remorso e me acho a bruxa malvada do leste por tem pensado em tais atrocidades. E aí eu acabo fazendo o papel de boazinha na maioria das vezes. Digo na maioria, porque alguma hora a coisa passa do meu limite aceitável e eu passo a fingir que a pessoa simplesmente não existe, e quem insistir e tentar me convencer do contrário, entra pra lista dos que “não estão mortos mas morreram” na vida da Laura.
Por isso que eu acho tão inútil dizer que eu sou a Laura, tenho 21 anos e faço Letras.
2 comentários:
Absolutamente fantástico!
KisS*
percebo-te bem...tambem tenho uma lista de pessoas "que nao estao mortos mas morreram"...
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