segunda-feira, 27 de abril de 2009
Uma música, um amor
Eu ponho uma música na vitrola, deito no chão e deixo o Chico-chiado se misturar com a poeira e se instaurar em mim. Quinze anos, ou dezesseis, eu achei um toca discos guardado na garagem, peguei uns dez LP's do Chico e trouxe tudo pro meu quarto. Era um domingo, eu não esqueço, ou talvez sabádo, as lembraças não tem datas - é isso que eu sempre me esqueço. E naquela época eu só queria saber de ouvir Chico e pensar como eu ia fazer pra mudar o mundo. Só bem mais tarde eu aprendi que o mundo não muda, quem muda somos nós, mas isso não importava ainda. Eu passava as noites em claro, eu, o Chico e as músicas que nós, juntos, escreveríamos. Observava de longe a agulha rasgando o vinil, enquanto ele falava baixinho, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água. Antes do Chico, eu só queria ser alguém importante, tinha o sonho besta da revolução implantado na cabeça. Com o Chico eu me apaixonei pela primeira vez. O Chico despertou o órgão hipersensível que habitava meu corpo, e que antes, palpitava ideologicamente por alguma causa sem razão. O Chico cantou todos os meus amores, e fez de todos os meus pretendentes irrisórios, burros, e perversamente insensíveis. Depois de um tempo eu voltei a vitrola pra garagem, e baixei as músicas no computador. Mas eu nunca mais quis mudar o mundo, eu nunca mais tive grandes pretensões. Pra mim, tudo aquilo que cada um tinha dentro de si era tão bonito, tão instigante, e tão mais difícil de se adentrar do que qualquer causa operária consciente, que eu optei pelo caminho mais difícil. Um amigo virou cientista social, eu não virei nada. Uma conhecida, vai disputar as próximas eleições, eu vou passar as férias no Rio de Janeiro. Eu vou cantar. Eu vou sair por aí, vou escrever um verso em cada muro. Vou atravessar todas as ruas que se colocarem na minha frente, eu vou ir sempre em frente. E um dia, despida de qualquer ideologia barata, de qualquer idealismo frouxo - porque os ideais não são feitos de cimento -, eu vou sentar no meio fio, eu vou encher o meio fio de de amor, eu vou entupir os bueiros com as músicas do Chico, eu vou encher as calçadas dos meus quinze anos, e quando chover o mundo vai sentir o cheiro rasgado dos corações apaixonados.
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2 comentários:
Music was my first love
and it will be my last.
Music of the future
and music of the past.
você me comove
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