quarta-feira, 15 de julho de 2009

As nossas escolhas

Quando eu a conheci, ela era uma das meninas mais bonitas e legais da turma. O engraçado é que todo mundo tinha namorado menos ela, e parecia que toda hora faziam questão de lembrá-la disso, como se fosse algum tipo de defeito. Pra mim esse tipo de coisa nunca fez muito sentido, até porque eu fui ter meu primeiro namorado aos 17, enquanto todas as minha amigas estavam, pelo menos, no segundo. Mas parecia que o fato dela não ter namorado incomodava todas as pessoas em volta.
Os comentários eram sempre cheios de pena ou sarcasmo, e eu, como era "nova" na turma, nunca repliquei ou contestei, a não ser mentalmente, esse tipo de situação. Nada era muito explícito, mas as coisas implícitas sempre me incomodaram mais do que aquilo que era expresso nitidamente, até porque, quando se tem o álibe da subjetividade, é muito fácil se ausentar da culpa. Mas o tempo passou, e além de nos tornarmos amigas, ela se apaixonou por um dos meus amigos.
Engraçado era que os comentários não perdiam o tom, finalmente desencalhou, foi a frase mais ouvida no primeiro mês de namoro. Depois de seis meses, a coisa mudou para um "não vai durar muito". Mas ela nunca pareceu se importar muito com isso, e eu também nunca ousei perguntar, era como se aquele tipo de julgamento não surtisse efeito na sua vida, mas porque raios aquilo me incomodava tanto?
Uma vez comentei com um amigo e ele falou que era meu instinto de sempre querer proteger as pessoas que fazia com que eu me sentisse tão mal quando aquele tipo de situação acontecia. Mas não era isso, a questão foi que eu passei a me incomodar a todo momento, não só quando faziam comentários maldosos sobre o estado civil da dita cuja. Era como se eu sentisse que aquelas pessoas poderiam fazer a qualquer momento alguma observação sobre a minha pessoa, afinal, eu era muito menos bonita, legal e sociavel do que ela. E eu tinha completa noção que se eu fosse me importar realmente com isso, eu não teria vida - até porque eu tenho uma certa tendência pra neurose, é bom deixar claro.
Até que um dia, entre uma cerveja e outra, aquela que tinha s- ou pensava eu que tinha - se tornado, até então, minha amiga falou sobre uma das coisas que me deixa realmente sem graça: meu peso. Foi uma piada, todos riram, e se eu não fosse tão encanada assim com isso, teria rido também. Mas eu não ri, não havia motivo pra risada, e pela primeira vez eu não me importei com meu peso, ou com o que achavam dele, mas como tinha sido tola aquele tempo todo.
Como tinha sido teimosa em cismar em querer ver tudo através das minhas lentes, do meu ponto de vista, daquilo que eu - e mais ninguém - achava certo. Eu percebi que as minhas preocupações eram sem sentido, e que o que as pessoas falavam não continham todo o peso que eu dava pra elas. Tudo ficou claro, e mais claro ainda que aqule não era o tipo de gente que eu queria do meu lado. Não por uma questão moral, não por que eram pessoas ruins, mas eram pessoas que não tinham as características que eu julgava importante para qualquer ser humano. E isso só diz respeito a mim, porque eu tenho direito de escolher quem vai ficar do meu lado.

4 comentários:

Fran Noya disse...

Às vezes eu penso que não escolhemos as pessoas e sim elas que nos escolhem.

Bruno Barrio disse...

bah, je sais pas...

Gabriel disse...

Interessante: proteger os outros é também nos proteger, especialmente das injustiças.

Sobre as piadas, é engraçado, é uma linha tênua, mas, para mim, bastante perceptível, sobre como as pessoas projetam as suas inseguranças nos outros (para ser maior, os outros tem que parecer menores).

Também não consigo ficar perto desse tipo de gente, mesmo por uma questão de coerência e paz de espírito :)

beijos!

Dois Cafés disse...

essas escolhas não são fáceis, normalmente demora um tempo para enxergarmos claramente e compreendermos do que se trata sem pré-julgamentos cheios de ilusões.

nunca gostei desse tipo de "piadinha de mau gosto", bom humor é fantástico e necessário, mas temos muitas melhores maneiras de brincar!

você tem todo direito sim, moça!

beijos