segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Um guardanapo de papel
Inútil e incapaz, ela firmava a ponta do lápis sobre o guardanapo e nada saía. Óbvio que não. Lápis não tem sentimentos, pensou. Muitos menos guardanapos de papel, e riu. Talvez os de pano tivessem, eles são reutilizados, e não amassados e jogados no lixo. Então a vida se mediria pela possibilidade de passar pelas situações sem ser amassada e jogada fora? Então tudo se basearia na sorte em ter nascido de pano ou não? Os olhos baixaram, não tinha mais idade pra pensar esse tipo de bobagem, e agora, muito menos falar. Mas também não tinha mais com quem falar, de nada adiantava muito se lamentar por pensar o que não deveria. Se sentia profundamente triste, em alguma parte da sua vida tinha realmente acreditado que seria capaz de abraçar o mundo, e agora? O mundo parecia tão maior do que ela tinha imaginado. E parecia impossível duas pessoas abraçarem a mesma coisa ao mesmo tempo. Afinal, era a lei da física, ou algo parecido. Talvez algo parecido seja a melhor definição, ela se sentia no estágio do "algo parecido". Que era pior que o quase, afinal, já estava pronto e estabelecido, apenas não era satisfatório. Tinha atingindo algum nível, mas não sabia qual. Suspeitava que não faria muita diferença descobrir. Tinha se perdido no tempo, e não tinha certeza onde poderia se encontrar. Perdeu todas as cartas que tinha na manga, depois de um tempo a gente se sente vazio e sem vida, pensou alto. Resolveu anotar, mas esqueceu em seguida. Tomou mais um gole, e engoliu as lágrimas. Assim como a ensinaram quando criança, e ela nunca concordou. Mas dessa vez era diferente, ela não podia deixar escapar o que ainda restava de si, dentro de si. Guardou o lápis no bolso e amassou o guardanapo. Arremessou bem longe e ele caiu logo em seguida com o peso da chuva. se desfez, enquanto escorregava pelo bueiro. Inútil e incapacitada, derretida entre as gotas de chuva. Se levantou e sorriu, perdida para sempre. Até o próximo arco-íris.
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Um comentário:
sempre achei que os guardanapos de papel fossem mais sedutores, mas apenas por serem sempre disponíveis. Vontade de se expressar? Ali está ele na falta de um papel decente, amigo de verdade esse, nunca nos falta pra consolar. Pena que seu fim na boa parte das vezes nunca é digno...
E pra vc, claro, mil elogios.
e tbm espero poder sempre encher sua paciência quando estiver mal-humorada, melhor que isso, só te ler, o que no meu caso, não me sobra mais que isso.
;D
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