segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vestir-se-me

Quando a saudade era muita, ela vestia as meias dele. Era uma forma, ela pensava, de te-lo mais perto de si, aquecendo seus pequenos e gelados pés. Ela ainda não tinha se decidido se era bom ou ruim:  tê-lo perto de si era mantê-lo em seu pensamento até quando não queria pensa-lo. Era sentir o frio entre seus dedos, era sentir o incômodo, a estranheza de seus pequenos pés frente a meias tão grandes. Era sentir-se ligada, conectada, ainda que ilusoriamente, à existencia dele. A vida só e solitária que levava, perdia o sentido quando seus pés se aqueciam, seus dedos se embaraçavam, sua mente, sempre focada, se permitia esquecer da realidade temporária (e migrar para uma eternidade insolúvel). Vestir suas meias era como sentir seu perfume. Sentir saudade era, então, sentir presença.

3 comentários:

Renato Nonato disse...

Saudade nunca é um vazio. Ela tem corpo, pesa, cresce...

Maíra Selva disse...

e eu me aquecendo nas minhas próprias meias.. ai, ai...

Maurício Fonseca disse...

A saudade é a sombra do tempo que passa e deixa seu rastro.