AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO
E AOS QUE NELES SE
DESCOBREM E, ASSIM
DESCOBRINDO-SE, COM ELES
SOFREM, MAS, SOBRETUDO,
COM ELES LUTAM.
Paulo Freire.
Falar de "Preciosa" é difícil, sentir "Preciosa" é pior ainda. Uma negra, gorda, analfabeta, abusada, maltratada, com dois filhos e nenhuma perspectiva. O amontoado de clichês nos fazem obter a altura necessária para saltar o muro do senso comum. O mergulho na realidade da triste Clareece, é um mergulho para dentro de nossos próprios monstros. Muito mais complexo do que a tela plana do cinema permite, o filme escarra toda a violência à qual Clareece está sujeita. Não há saídas, não existem becos em que possa se esconder. A única fuga possível é encontrar-se. É perceber-se dentro de um mundo em que não há espaço para ser ou sentir, descobrir-se numa escola alternativa para alunos problemáticos no Harlem. Em busca de tudo e qualquer coisa, a presença da professora Rain se dá como um suspiro, aquela primeira bolha de ar que sai da garganta depois de muito tempo sem respirar. A cada palavra ensinada, a cada letra aprendida, a consciência de que as grandes jornadas começam com passos curtos. Aos poucos, Clareece aprende a determinar os limites para sua própria dor. O sofrimento de quem sabe e vê, de quem não é mais um cachorro cego vagando pelas ruas, confundindo chutes com carinho. A professora Rain foi um ponto de luz para Clareece, Clareece não foi uma escolha para a professora Rain."Preciosa" é um filme sobre a esperança dos que não podem esperar, sobre como mãos se apoiam e se levantam, sobre a dificuldade de se parir o amor.

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