domingo, 1 de fevereiro de 2009

Suicídio

Pela primeira vez ela sentia nojo. Queria não sentir mais o cheiro da pele dele na sua. Sentia que seu corpo se condicionava pelo dele, nada mais era seu: os gestos, as palavras, até sua respiração era dele. Duvidava se ao menos seu sangue havia restado, imaculado.
Tomou diversos banhos, esfregou a pele até sangrar, e ainda conseguia sentir o odor dele exalando dos seus poros. Perfumes, cremes, desodorantes, nem a química mais forte surtia efeito.
Olhou em volta de si, estava sozinha, perdida em meio às meias esquecidas embaixo da cama, suspeitava. Tinha certeza de ter se perdido em algum momento anterior à ele mas, por mais que forçasse a memória, sentia que até seu passado ele havia levado para si. Não se lembrava de absolutamente nada que se antepusesse ao dia que se conheceram. Tinha se transformado num personagem, sem controle sobre suas ações, não se livraria do estigma nem do enredo aos quais estava predestinada.
A ausência de si mesma se contrastava com a plenitude dele em seu corpo. A falta de lucidez que acompanhava a dor, a fazia quase duvidar e cambalear entre a tênue linha que separa realidade e ilusão: sentia-se ele.
Olhou-se no espelho, continuava a ter seios e cabelos compridos. Tocou-se, e sentia as mãos dele sorvendo sua pele. Parecia que não havia saída, era uma condenação, um castigo.
E num espasmo teve a impressão de ter alcançado seu limite. Limite que por muito tempo almejou e convictamente buscava, travestido de felicidade. Desmaiada, caída em si, sentiu a profusão de pensamentos, e não conseguindo distinguir seus remetentes, enxergou a claridade queimando seu rosto, a felicidade a estava matando, lentamente.

2 comentários:

Fran Noya disse...

AAAhh gostei mesmo desse post!!!
Muito bom de verdade, o que vc sentia eim?! Acho que entrei nesse texto.
E depois que duas pessoas são uma, partir ao meio não é separar.

Beijos ;D

Mr. Mojo Risin' disse...

Grande...muito grande!!!