domingo, 27 de junho de 2010

Ele dizia que ela não podia ser confiável. Seus cabelos faziam uma cortina de mistério em um dos seus olhos. Como se sempre escondesse uma parte da verdade. Hoje isso lhe doía a consciência, aquilo que pensamos em todos inícios, todas as nossas primeiras intuição, são, eram e serão sempre verdadeiras. Não que ela realmente não fosse confiável, porque a verdade é sempre distorcida, isso, em algum tempo, ele já tinha retorcido. O lado da verdade que latejava, como a escuridão dilatando pupilas, era que ele nunca encontraria segurança em metades entrecortadas por fios de cabelo. E sabia disso quando eles entraram mesmo por entre seus lábios, quando insistiam em separar seu suor do dela. Pensou em arrancá-los, mas temia, até porque nunca escondeu sua importância, que perdesse sua fascinante beleza. Comprou fivelas, lenços e tiaras, e mesmo quando as usava, aqueles impressionantes fios insistiam em sorrateiramente persuadir as fibras plásticas e esconder os lampejos de um olhar. Ah, aquele olhar. Era por ele que seu peito se dilacerava em lembrança dolorida de um amor incerto. Que sempre fora, que sempre se soube incerto. Amores não podem crescer por entre fios de cabelos. Marrons e sedosos, que dissimulavam seus dedos, fazendo-o pensar, ao menos por um instante, que era um adendo à sua imensa beleza. Sua não, nunca fora. Fora suor, sangue e lágrimas. Mas nada sua, nem beleza, só passado sem particípio. Seu coração transbordava, falar em dor transformaria suas profundas feridas calcificadas em superficialidades mínimas. Olhar dentro dos olhos dela, já não seria mais a verdade que nunca fora. Era hora de parar de lutar contra o irremediável, descansar os dedos e braços que viviam para lhes tirar os  fios do rosto. Era de confiar nos seus instintos e não se deixar invadir  pelo impenetrável. Era hora de sublimar a si mesmo para renascer.

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