Eu tenho que escrever um ensaio pra faculdade e não sei nem por começar. Logo eu, que passei 18, dos meus 21 anos ensaiando pra todo tipo de apresentação, não consigo sentar a bunda na cadeira e escrever a porcaria de um ensaio sobre Machado de Assis. Na verdade não é sobre Machado de Assis, mas sobre dois contos dele, “Cantiga de Esponsais” e “Um Homem Célebre”. Os dois contam tratam de talento e vocação, e principalmente, de não estar satisfeito com o que se é. A música, que não é só plano de fundo, mostra como o popular e o erudito no Brasil são conceitos muito, ou melhor, muitíssimos complicados de serem aplicados.
Tem um livro do Wisnik, que faz umas referências muito boas sobre alguns contos do Machado que usam a música como cenário. E eu leio, releio e tudo que eu penso não passam de meras paráfrases do que todo mundo já disse. Porque todo mundo já falou sobre Machado, porque todo mundo já falou sobre pessoas que não estão satisfeitas com o que são, sobre fama em oposição à realização pessoais, frustrações e dores. E aí, o que eu escrevo?
Tem um texto do Adorno sobre o gênero “ensaio”, e lá ele diz algo como escrever sobre o que te tocou, expor seus pensamentos sem se preocupar com forma ou conclusões, mas sentir o texto e externalizar esse sentimento. Tá, mas assim, tirando todas essas coisas que, se eu abordar não vão ser mais do que ecos ressoando tudo que todo mundo já disse nesses anos de existência, sobre o que eu posso falar?
Também não sei porque agora me veio esse tipo de preocupação, logo eu que nunca me incomodei em fazer um trabalho mal-feito. O problema todo é que eu sempre ensaiei, e ensaio pra mim era repetição, aperfeiçoamento da obra final. Vai, deixa eu rir. Eu vou aperfeiçoar o Candido? O Bosi? Não, muitíssimo obrigada. Eu acho é que vou tentar alguma coisinha mais sentimental, com um português bonito e tocante, algo que pegue no ponto firme de quem leia, e que resgate todos os meus anos de ensaio em que precisava encontrar um novo motivo todos os dias pra refazer e repensar tudo aquilo que meus pés pareciam já saber de cor.
Bom, agora eu vou parar com essa lenga-lenga e começar meu trabalho.
Beijotchauoutro.
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